pedroserra.jpg

A entrevista desta semana é com o jornalista, professor de inglês e português para estrangeiros e DJ de música eletrônica, Pedro Serra. O blogueiro mantém a página Na Média, na qual escreve sobre Jornalismo, Marketing, Publicidade e afins. Eu descobri o Pedro a partir de um comentário que ele fez na entrevista com a Ana Carmen Foschini, postada aqui no blog, semana passada, e decidi entrevistá-lo, uma vez que ele também se mostra interessado em entender cada vez mais esse fenômeno que é a blogosfera.

Para Pedro Serra, a blogosfera abriu espaço para a quem antes falava para as paredes. Os blogueiros, na sua visão, são “formiguinhas com megafones” que fazem muito barulho. No seu Na Média, Pedro diz que se transformou em blogueiro porque “sempre gostei de escrever e sempre gostei muito de analisar as coisas”. Nesta entrevista ele confessa que fez várias tentativas de manter um blog, mas sempre acabava abandonando o projeto. Dessa vez está levando a empreitada adiante.

Aqui conversamos sobre os assuntos do momento na blogosfera: credibilidade dos blogs, as investidas da mídia convencional para firmar parcerias com blogueiros [depois do Estadão nos comparar a macacos que apenas fazem Ctrl C/ Ctrl V em conteúdos sem importância], democratização da comunicação trazida pelos próprios blogs e sites colaborativos, entre tantas outras questões que dizem respeito à blogosfera.

Sobre a tal isenção da imprensa no Brasil, Pedro Serra tasca a seguinte observação: “No Brasil ainda tem a questão das concessões. Antônio Carlos Magalhães, antes de morrer, detinha o controle de diversas concessões de rádio e televisão na Bahia, os Sarney no Maranhão, os Collor de Mello em Alagoas. Por meio de testas-de-ferro, Jader Barbalho tem concessões de rádio. Renan Calheiros também. Isenção [qual]???”. A monografia de Pedro foi sobre Jornalismo Investigativo, tomando como base o caso do assassinato do jornalista da Rede Globo, Tim Lopes. Vamos à entrevista, então:

 

BL- Para começar, como, quando e por que você se tornou blogueiro?

Eu já havia feito algumas tentativas de manter um blog, mas sempre acabava abandonando o projeto. Acho que ainda não tinha encontrado o modelo ideal de página que eu queria. Em agosto resolvi que era a hora e criei logo dois. Primeiro veio o Na Média, onde falo de Jornalismo, Marketing, Publicidade e afins. Logo depois criei o Sem Destino, sobre turismo.

O primeiro eu criei para me manter atualizado sobre esses assuntos, para dar vazão aos meus pensamentos (e parar de encher o ouvido dos meus amigos com eles) e para fazer contatos, já que com o blog acabo conhecendo muitas pessoas da minha área. O Sem Destino eu criei para escrever sobre um assunto que eu gosto muito e para poder “viajar sem sair de casa”.

BL- Como você avalia a polêmica criada pelo Estadão em torno da suposta “inutilidade” e falta de credibilidade dos blogs?

É uma visão retrógada do jornal, que com isso apenas demonstra não ter o menor conhecimento do que acontece na internet hoje em dia. Quando dou uma passeada pelos blogs e vejo o conteúdo da maioria deles, fico feliz de ver que são poucos os que se encaixam naquela descrição que o jornal fez deles. E os que se encaixam, você meio que já nota de cara, pois são desleixados com a aparência, ou têm muitos erros de português, ou já são tendenciosos no título de seus posts. Mas acredito que desses a própria “seleção natural” se encarregue, ou seja, os próprios leitores já sabem identificar esse tipo de blog e fogem deles.

 

BL- Você não acha que faltou um pouco de reflexão, por parte de quem pensou a campanha do Estadão, sobre a questão da credibilidade e das mancadas cometidas pela chamada “imprensa hegemônica”?

O Estadão esqueceu de olhar para o próprio rabo quando fez esses anúncios. Porque a comparação entre eles e o que acontece na mídia impressa hoje em dia é inevitável. Por exemplo, aquele do macaco que copia e cola textos… bom, os jornais fazem a mesma coisa quando publicam, quase que na íntegra, mudando apenas uma vírgula ou outra, os releases de assessorias de imprensa. O outro, dos dois rapazes ruivos que, tendenciosamente, fazem um texto afirmando que os ruivos são os melhores amantes… o mesmo acontece nos jornais, que estão presos a interesses comerciais e políticos e trazem isso para seus noticiários. E para terminar, tem aqueles veiculados na mídia impressa sobre as dicas de psicologia e comportamento do Moacir (um cara que se veste de Batman), ou de praia do Guto (um branquelo), ou sobre mulheres do Fredão (um cara que não deve pegar ninguém). Aí, podemos comparar que os jornais cada vez mais se baseiam em fontes e menos em apuração. Quem sabe as dicas que eles andam recebendo sobre os mais variados assuntos não são também de pessoas como o Fredão, o Guto e o Moacir???

BL- Quais os blogs que você lê diariamente?

Eu não tenho blogs específicos. Geralmente pesquiso as tags que me interessam e vejo os posts. Até porque gosto de assuntos muito variados, então prefiro surfar pelas páginas ao invés de me ater a uma só. Mas um que sempre leio é o Monitorando.

BL- Como comunicador e professor, qual a sua análise sobre a contribuição que os blogs podem dar para a democratização da comunicação num país como o Brasil, onde os grandes veículos de comunicação estão concentrados nas mãos de poucas famílias, que por usa vez os usam de acordo com os seus interesses?

O blog permite a você criar um veículo de baixíssimo custo, com um alcance enorme e sem imposições quanto ao texto. A blogosfera deu um espaço a quem antes falava para as paredes. Agora, utilizando uma frase que ouvi em um vídeo sobre o assunto, nós somos “formiguinhas com megafones”, e fazemos muito barulho. Se não fosse pelos blogs, íamos ficar sem saber de muita coisa que acontece por aí, simplesmente porque os jornais não querem, não podem ou mesmo não têm espaço para publicar.

Mas não é só isso, a blogosfera permitiu que uma pessoa que goste de jogar peteca crie um blog sobre o assunto. Diga-me quando nós teríamos um veículo de penetração nacional especializado neste grande jogo inventado no Brasil.

BL- A blogosfera brasileira parece estar começando a se profissionalizar. Grandes portais de conteúdo como o IG, G1, Terra, entre outros, estão se interessando pelos blogs a ponto de firmar parcerias com blogueiros pioneiros como o Edney de Souza [agora parceiro do IG]. Como você avalia esse momento?

A imprensa notou que as mudanças que a web 2.0 vêm trazendo são inevitáveis. Hoje, qualquer um com um blog e um celular com câmera é “jornalista”. Eles sabem que remar contra a maré cansa, cansa e não dá em nada… Aquele famoso ditado já dizia, “se você não pode vencê-los, junte-se a eles”. É isso que os jornais vêm fazendo.

E não é só com blogueiros, o portal de notícias da Rede Globo, por exemplo, criou uma seção chamada “Você no G1”, onde o internauta envia sua notícia ou foto para ser publicada pelo site. Com isso, eles agora têm jornalistas em todos os cantos do Brasil e do mundo, sem pagar nenhum centavo por isso. Acredito que os jornais têm sido mais espertos e rápidos que a indústria fonográfica ao entender essas mudanças e se adaptar a elas.

BL- Você concorda, no entanto, que a blogosfera tupiniquim ainda esteja alguns passos atrás dos blogs americanos e portugueses, que já têm um certo peso enquanto veículos alternativos de comunicação, com capacidade para influenciar na opinião dos leitores em questões como eleições presidenciais, por exemplo?

Aí eu acredito que seja também uma questão de alcance. Nos EUA, cerca de 152 milhões de pessoas acessam a internet, segundo um estudo da comScore Networks divulgado no ano passado. Isso é quase a metade da população do país. Já Portugal ocupa o quinto lugar no ranking da União Européia dos países onde a internet tem a maior penetração, com 60% de sua população conectada à rede, conforme uma pesquisa do ICANN. No Brasil, são apenas 30,1 milhões de usuários, sendo que apenas 19,3 milhões são usuários ativos, ou seja, aqueles que acessam a internet pelo menos uma vez por mês, segundo os dados do Ibope/NetRatings deste mês. Só com esses dados você já pode ter uma idéia do que acontece. A internet está nas mãos de poucos, e geralmente os que têm acesso de uma forma regular são pessoas da classe média e alta. Para influenciar uma eleição, a internet teria que chegar aos bolsões onde o Bolsa-Família está, às cidades do interior onde os políticos têm as suas rádios e concessões de TV, aos brasileiros que mal sabem ler e escrever. Não adianta o blogueiro escrever bem, gritar e espernear, pois seu alcance é limitado a uma pequena parcela da população.

BL- A propósito, qual a sua percepção do impacto que o jornalismo cidadão e os blogs estão causando e ainda poderão causar no espectro comunicacional brasileiro e internacional?

Acho que o maior impacto é democratizar a informação, tirando-a das mãos de um grupo pequeno controlado por pessoas ligadas a interesses comerciais e políticos e passando para pessoas com diferentes visões e percepções sobre um mesmo assunto. Outro impacto é a mudança que isso força nas empresas de comunicação, que se vêem obrigadas a entender e acolher esse público barulhento, além de agora serem fiscalizadas por eles. Mas para realmente sentirmos esse impacto, a internet tem que chegar a mais pessoas, a educação tem que melhorar no Brasil e muitas outras coisas têm que mudar. Porque se mesmo com os grandes jornais e revistas gritando contra a absolvição de Renan Calheiros ele foi absolvido, que impacto nós blogueiros temos?

BL- Para grande parte dos estudiosos do fenômeno, o surgimento dos blogs, a partir da segunda metade da década de 1990, consiste na maior revolução no mundo da comunicação desde a massificação da técnica de impressão por Gutenberg, pois deu ao cidadão comum, ao não jornalista, a possibilidade de ter o seu próprio veículo de comunicação. Você concorda com esse pensamento?

Hummm, deixe-me pensar… acho que cada revolução na comunicação teve sua época e seu propósito, e não acho que podemos dizer que uma seja maior do que a outra. O rádio levou a informação a milhões de pessoas, a televisão trouxe as imagens, a internet, em sua primeira geração, globalizou a informação. Porém, em todos esses casos, a comunicação estava nas mãos de grupos, que controlavam como, onde, quando e porque elas deviam ser publicadas. Agora, com a internet 2.0, veio o conteúdo colaborativo, a mídia gerada pelo usuário. Todas as invenções anteriores democratizaram a informação, porque foram aumentando o alcance dela, levando a mais e mais pessoas. A revolução de agora é apenas mais um passo, e com certeza vem mais mudanças por aí.

BL- Na sua avaliação, a “mídia convencional” está começando a aprender a conviver com os blogs, uma vez que alguns dos maiores veículos pelos menos já tiveram que se render à prática irreversível do jornalismo com a intervenção do público, o chamado jornalismo colaborativo ou jornalismo cidadão?

Sim, o exemplo da indústria fonográfica demonstrou que “camarão que dorme a onda leva”. Os jornais até cochilaram, mas acho que estão acordando a tempo de se adaptar a essas mudanças. Muitos ainda resistem, mas aí a seleção natural, mais uma vez, vai se encarregar deles. “Survival of the fittest”, a sobrevivência dos mais adaptados, teoria de Charles Darwin, se aplica também às mídias impressa e eletrônica.

BL- Para fechar a nossa conversa com uma pitada de polêmica: qual a sua análise da qualidade do jornalismo praticado no Brasil atualmente? E mais: a forma como a notícia é tratada em alguns casos não deixa a mídia convecional na berlinda, igualmente como esta faz ao questionar a credibilidade dos blogs?

Fiz uma análise do jornalismo no Brasil na minha monografia, que está disponível no meu blog, então falo sobre isso embasado no que dizem muitos estudiosos do tema. A imprensa de um modo geral, não só no Brasil, está cada vez mais dependente de fontes oficiais, de press-releases, de dossiês, e menos preocupada com a apuração. “O Ministro declarou que…”, “segundo a assessoria de imprensa de fulano de tal…”, “documentos obtidos por nós demonstram que…”. Mas e aí, será que as informações que eles vêm recebendo têm credibilidade? Os jornais não checam mais as informações que recebem, seja por preguiça, por falta de pessoal e tempo, ou por ter como fontes pessoas ligadas a seus interesses. Com isso, acabamos ficando com apenas um lado da história, geralmente o lado do mais forte. Isso sem falar nos interesses.

A maioria das empresas de comunicação tem também outros negócios Vou citar aqui exemplos americanos porque são os que tenho a mão. A Disney controla a ABC, a AOL Time-Warner controla a CNN, a ViaCom controla a CBS e a GE controla a NBC. Dá para fazer um jornalismo isento assim?

No Brasil ainda tem a questão das concessões. Antônio Carlos Magalhães, antes de morrer, detinha o controle de diversas concessões de rádio e televisão na Bahia, os Sarney no Maranhão, os Collor de Mello em Alagoas. Por meio de testas-de-ferro, Jader Barbalho tem concessões de rádio. Renan Calheiros também. Isenção??? José Sarney distribuiu concessões a torto e a direito para aprovar o mandato de cinco anos na assembléia constituinte em 88. Fernando Henrique o fez visando a reeleição. Lula está meio engessado por uma lei de FHC que diz que apenas as concessões educativas podem ser distribuidas. Bom, ele já distribuiu sete dessas concessões a políticos. Sabe quem tem (ou pelo menos tinha) uma emissora educativa? Sérgio Naya, aquele do Palace II, prédio que desabou no Rio de Janeiro.

 

Anúncios