A maquiagem feita na pensão a deixou com um aspecto mais moderno, ainda que no seu interior tudo continuasse com cheiro de coisa velha, mofo… A fachada tinha sido remodelada, ganhando feição de construção nova. Para quem chegava e via a coisa de fora, parecia que realmente novos ares estavam sendo respirados naquele abrigo de espertalhões e pessoas de caráter deformado. Nos meios de comunicação mensagens publicitárias afirmavam que a pensão estava caminhando na direção dos melhores ambientes do século XXI.

Internamente, porém, tudo era caos. O administrador da pensão não confiava no seu sócio-acionista e os vários auxiliares ficavam incitando para que ele lhe passasse a perna, lhe tirasse a autoridade quando estivesse ausente. Aconselharam-no a contratar um gerente-extraordinário de sua inteira confiança para pagar despesas e vigiar os passos de todos aqueles que circulavam ao seu redor. O sócio-acionista da espelunca remodelada ficou bufando de raiva, mas conteve seu ímpeto de “chutar o pau da barraca”, como se diz no linguajar chulo utilizado nos recantos da pensão. Tudo tinha que ser calculado friamente.

Como se sabe, pensão é lugar que abriga todo tipo de gente, de todas as origens, com todos os hábitos e costumes. Inclusive o da fofoca. A nomeação de um gerente-extraordinário caiu feito uma bomba. Todo mundo comentava o assunto. Mas calava tão logo o sócio-acionista da pensão se aproximasse. Afinal, o homem tinha certa influência e poderia fazer rolar a cabeça de muitos que se alegravam com a sua desmoralização entre os hóspedes da pensão.

Sabe-se, porém, que no porão daquela casa velha está sendo tramado algo para tirar de vez a pensão das mãos do seu administrador mor. Enquanto isso, a novidade do gerente-extraordinário continua gerando intrigas e fomentando a reação que está sendo tramada em silêncio. As paredes da velha pensão, cheias de ouvidos, aguardam ansiosas pelo desfecho do próximo ato. O que está por vir, ninguém sabe.

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